Quilombo dos Palmares

Luis F M Coelho
coelholf@yahoo.com.br


    Quilombo dos Palmares


"a maior e mais longa experiência de contestação da ordem escravista de todos os tempos"

No fim do século XVI (1580-1600) diversos escravos que escapavam de engenhos de açúcar da capitania de Pernambuco se dirigiram a Serra da Barriga, atual Alagoas, onde ocuparam uma vasta área de mata. Esses ajuntamentos de escravos fugidos eram conhecidos como quilombos, e nesse local começava a se formar o Quilombo dos Palmares.

Cada vez um número maior de escravos chegava à Palmares, alcançando 3.000 habitantes em 1630. Os quilombolas obtinham sua subsistência a partir da coleta de frutos, caça, criação de animais e agricultura. Além de negros e em menor número, alguns índios, mestiços e mesmo brancos habitavam Palmares. Com o crescimento da aldeia, a notícia de que havia uma região em que os negros viviam livremente percorreu as fazendas. E Palmares transformou-se em sonho dos escravos, a meta a ser alcançada. Conseqüentemente a vigilância nos engenhos foi reforçada, e milícias dos fazendeiros começaram a receber apoio do governo de Pernambuco.

Porém com a invasão holandesa em Pernambuco (1630 a 1654) os senhores de engenho descuidaram-se da vigilância das fazendas e os escravos passaram a fugir às centenas, sendo este, um fator primordial da expansão e do fortalecimento dos quilombos. Os próprios holandeses organizaram expedições contra Palmares, foram entretanto, rechaçados pelos quilombolas em 1644.

Após a expulsão dos holandeses, os portugueses iniciam uma violenta guerra, com mais de vinte expedições militares contra Palmares, pois o quilombo se transformou em um verdadeiro Estado autônomo encravado na capitania de Pernambuco, que no auge de sua existência ocupava uma faixa com cerca de 200km de largura paralela a costa, que se estendia do cabo de Santo Agostinho até a margem esquerda do rio São Francisco, onde diversas aldeias (mocambos) estavam distribuídas. Chegou a abrigar entre 20 e 30 mil pessoas, cerca de 13% da população brasileira na época, excetuando-se os indígenas.

Também possuía uma grande produção de artesanato com palha de palmeira (cestos, vassouras, chapéus, leques), de tecidos, de cerâmica e de metalurgia, como o excedente era comercializado se formavam relações econômicas organizadas com comunidades vizinhas (colonos).
De 1954 até 1677 o Quilombo dos Palmares já havia derrotado 24 expedições chefiadas pelos capitães-mor de Pernambuco, dando inicio a tradição marcial da capoeira. Uma antiga toada de Palmares diz "Folga negro, branco não vem cá, folga negro, branco não vem cá, se vier, em farrapos se irá.".

Durante esse período, soldados portugueses aprisionaram uma criança que acredita-se ser Zumbi (nascido em 1655, se tornou um dos maiores líderes de Palmares). Zumbi foi levado e entregue a padres jesuítas, foi batizado como Francisco e passou a ajudar nas missas e estudar português e latim. Com quinze anos de idade, Zumbi foge e retorna a Palmares, no período em que Ganga Zumba (considerado por alguns como o tio de Zumbi) era o chefe do Quilombo de Palmares. Zumbi se mostrou um grande guerreiro e estrategista militar durante as batalhas contra a tropa comandada pelo Sargento-mor Manuel Lopes.

Em 1677 o Capitão-mor Fernão Carrilho, ofereceu a Ganga Zumba um tratado de paz. Por seus termos, era oferecida a liberdade aos nascidos no quilombo, assim como terras para realocá-los. Grande parte dos quilombolas rejeitaram os termos desse acordo, entre eles Zumbi, e permaneceram em Palmares. Gambá Zumba que havia se rendido com cerca de 400 seguidores, morreu envenenado poucos anos depois. Assim o tratado de paz foi quebrado e Zumbi se tornou chefe de Palmares. Tornou-se também um mito, por ter sido educado por brancos e não ter abandonado seu povo e por sua habilidade como guerreiro, seus seguidores acreditavam que ele tinha o corpo fechado e que não podia morrer.

Com o fim da trégua as expedições militares portuguesas continuaram fracassando, até que em 1987 o novo governador de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, chamou o bandeirante Domingos Jorge Velho para exterminar Palmares, famoso pela sua truculência e ganância, era chamado pelos jesuítas de o "maior criminoso do Brasil".

O acordo firmado a coroa portuguesa garantia ao bandeirante as terras de Palmares, propriedade sobre os negros capturados, o fornecimento de armas, munições e alimentos necessários para a guerra, a anistia de todos os crimes que por ventura ele e seus homens cometessem e cem mil réis em dinheiro. O preço era alto, mas os grandes proprietários de terra e de escravos estavam dispostos a fazer qualquer coisa para acabar com Zumbi e Palmares.

Por duas vezes as tropas escravistas tentaram em vão entrar em Palmares, porém os quilombolas eram mais ágeis, mais confiantes e mais fortes, era quase impossível capturá-los vivos. Eram acima de tudo muito superiores na luta corpo a corpo, seus movimentos eram descritos pelos soldados como um jogo de braços, pernas e tronco extremamente ágil e violento.

Em 1693 Caetano de Mello e Castro assume o governo da capitania de Pernambuco, e estabelece como prioridade acabar com o Quilombo dos Palmares. Para tal, ordenou a maior expedição militar do período colonial, uma vez que implicou a mobilização dos quadros militares de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão. O Comando-Geral ficou a cargo de Domingos Jorge Velho, que tinha como braço direito outro bandeirante, o Capitão-mor Bernardo Vieira de Melo.
Então, em janeiro de 1694, com um exército de mais de 8.000 homens munidos inclusive com canhões, Domingos Jorge Velho mandou seus homens erguerem uma cerca junto das defesas de Palmares para encurralá-los. A luta foi difícil, todos os tipos de armas foram utilizados, e até água fervente foi usada pelas mulheres palmarinas na defesa do mocambo atacado, e após 22 dias de resistência, o Quilombo dos Palmares foi ocupado e destruído.

Zumbi e um grupo de soldados conseguiram fugir e, nesse momento, Zumbi substituiu a estratégia de defesa passiva por uma estratégia de guerrilha, com ataques surpresa a engenhos, libertando escravos e apoderando-se de armas, munições e suprimentos e empregando-os em novos ataques. Zumbi foi aprisionado quase dois anos depois, denunciado por Antônio Soares, um tenente de Palmares, que foi aprisionado e entregue a André Furtado de Mendonça, auxiliar de Jorge Velho. Após sofrer torturas, acabou por delatar Zumbi, como condição para obter a sua própria liberdade. No dia 20 de novembro de 1695, André Furtado de Mendonça capturou e matou Zumbi, cortou sua cabeça e exibiu-a em Recife.

Apesar dessa derrota, o povo de Zumbi continuou a resistir. De 1596 a 1716, ano da destruição de seu último reduto, os palmarinos suportaram investidas de 66 expedições militares e atacaram 31 vezes.

O episódio de palmares e a saga de seu principal líder são um importante marco da luta contra o racismo, assim, o dia da morte de Zumbi, foi escolhido como "Dia Nacional da Consciencia Negro".